13 outubro 2010

33 Devas na Astrologia Védica

por Pt. Sanjay Rath
tradução Flávia Venturoli Miranda

INTRODUÇÃO

     A maioria dos estudantes interpreta mal a palavra deva como significando deus. Na realidade, há 33 devas com aproximadamente 330 milhões de formas. A palavra é derivada da raiz div que tem dez significados[1] (para uma compreensão melhor, vamos ao glossário):
     1. krida - diversão
     2. vijigisha - conquista
     3. vyavahar - ocupação/atividade
     4. dyuti - inspiração intelectual ou esplendor
     5. stuti - elogio
     6. moda - prazer
     7. mada - alegria, intoxicação
     8. svapna - sonho 
     9. kanti - esplendor
    10. gati - direção, movimento
     
     Estas palavras definem o propósito de um deva. Jaimini define deva ou devata como indicado por devata karaka de um planeta Este é a terça parte na hierarquia (de necessidades espirituais) depois do atma karaka (ajudas na determinação do Ishta/Isha que dirige a emancipação do ciclo de renascimento) e amatya karaka (deidade que simboliza o alimento deste mundo). Assim deva ou devata é o Guru que guia ou ilumina certas habilidades inerentes que se desenvolverão nesta vida ou no caminho espiritual ou que conduzem ao cumprimento dos desejos etc. Nirukta[2] define deva como aquilo que
a)      confere benefícios (danada)
b)      ilumina (dipanad) ou
c)      é a fonte do conhecimento ou iluminação (dyutanad).
     Assim, traduzir deva como deus está conceitualmente incorreto. Esta visão é mais adiante confirmada sem um tico de dúvida no Aitereya Brahmana[3] como também o Sathapatha Brahmana[4]. A pergunta natural é: “se deva não são deuses, então quem ou o que é o deva e de que maneira eles estão associados ao jyotish, a astrologia védica”?

katame te trayastrimshat iti ashtou vasavah
ekadasha rudra, dvadasha adityah ta ekatrimshat
indraschaiva prajapatischa trayatrimshaviti
 Sathapatha Brahmana 14.16:
“Falamos dos trinta três (devas) de qual oito vasus,
onze rudras e doze adityas somam trinta um.
Indra e Prajapati incluidos traz seu número a trinta três.”

1. Ashta Vasava (Oito Vasus)

katame vasava iti.
agnischa prithivi cha vayusch antarikshamchadityascha dyauscha chandramascha nakshatrani chaite vasava aeteshu hidam sarve vasu hitam aete hidam sarve vasayante taddyudidam sarve vasayante tasmad vasava iti.
Sathapatha Brahmana 14.16:
Surya & Chandra

     O Sathapatha Brahmana dá a lista dos

     “Vasus são:
     1. Agni
     2. Prithvi
     3. Vayu
     4. Antariksha
     5. Aditya
     6. Dyau
     7. Chandrama e
     8. Nakshatra.”
 
     À primeira vista, isto pode parecer um pouco contraditório já que aditya também foi mencionada separadamente, mas aqui se refere ao Sol, chandra refere-se à Lua, nakshetras são as mansões lunares ou as constelações e os cinco restantes representam os estados da existência material. Estes oito formam a fonte primária de iluminação do eu. Eles representam as variáveis básicas que definem toda criação e sua fonte original de iluminação nos dez métodos definidos anteriormente como o propósito do deva. O Vishnu Purana torna isto mais lúcido na definição do vasu como:
água fogo ar terra
      1. apa - jala tattva ou líquido
     2. dhara - prithvi tattva ou sólido
     3. anila - vayu tattva ou gás
     4. anala - agni tattva ou energia
     5. dhruva - a Estrela Polar representando
a)      akasha tattva - o céu ou vazio e
b)      estabilidade do zodíaco i.e. a relevância de ayanamsa
 
Dhruva - Estrela Polar
     6. soma – a Lua
     7. pratyusha - a representação da Aurora recorrente
a)      O Sol - como causador da noite e do dia, isto é, a fonte de luz por detrás do amanhecer,
b)      lagna - o ascendente ou o ponto no horizonte oriental como representação do eu e é comparado ao amanhecer. 

                                       Lagna
     8. prabhasa – a luz esplendorosa das estrelas que se agrupam em 27/28 Nakshatras (Constelações).

Constelação de Escorpião
      Esta lista é o primeiro princípio do jyotish, cujos corpos criam todos os seres como também os guiam por diversas atividades definidas. Estas incluem
a)      o Sol,
b)      a Lua,
c)      as constelações chamadas de nakshatras e
d)      os pancha tattvas ou (orientação/direção) os cinco estados da existência de toda a matéria e energia. 
 
Sistema Solar
Assim, o luminares (Sol & Lua), os cinco planetas o Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno [regendo os cinco estados de energia (agni), sólido (prithvi), espaço (akasha), líquido (jala) e ar (vayu) respectivamente] e os 27 (ou 28) mansões lunares chamadas de nakshatras, formam o primeiro princípio. O nascimento insinua a criação e este é o princípio de sattva do suporte do ser nascido ou criado. 

27 Nakshatras - Constelações

2. Ekadasha Rudra

katame rudra iti.
dasheme purushe prana atmaikadashah te yadasmat martyacchriradtkramanti
atha rodanti tad yad rodayanti tasmad rudra iti
                                             Sathapatha Brahmana 14.16:
11 Rudras
      Os onze rudras[5] são definidos como devas. Dez destes são rudras responsáveis por sustentar o prana (força da vida, vital, ou ar) dentro do corpo que sustenta a respiração e a vida. Assim, a natureza deles é semelhante a de Marut, o deus da tempestade, e, de certo modo, com vayu (o elemento ar). O décimo primeiro rudra é Maheshvara e é o responsável pelo atma (alma). Estes são chamados de rudras, da raiz rud que significa chorar, já que a partida deles resulta a morte da pessoa, e os parentes e amigos choram.
5 pranas mais importantes
     Este onze rudras (inclusive Maheshvara) são responsáveis pela destruição de tudo o que foi criado e formam o segundo princípio do jyotish. Na primeira fase, há a destruição do corpo físico pelo partida de quaisquer dos dez rudras. Depois disso o atma (alma) é separado de manas (mente) por Maheshvara (Shiva), o décimo primeiro rudra

Maheshvara
 
     Os dois nodos lunares chamados rahu e; ketu são os destruidores. Rahu tem a responsabilidade de destruir os luminares e os signos (dvadasha aditya). Ketu destrói a criação material representada pelo pancha tattva (no jyotish, os cinco planetas o Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno) e os nakshatras

Rahu Keu Yantra
     Os rudras podem ser vistos como as forças que se unem em qualquer ser criado, tanto viventes como não viventes. Eles simbolizam a força de Deus e são também a força do ser criado já que a partida deles resulta na fraqueza do corpo que é destruído. 

3. Dvadasha Aditya

katame aditya iti.
dvadashamasah samvatsarasya aita adityah aite hidam sarvamadadanayanti
taddvididam sarvamadadana yanti tasmaditya iti.
                                            Sathapatha Brahmana 14.16:
12 Rashis - Signos
      Dvadasha significa doze e masa significa mês - assim os dvadasha (doze) adityas são os doze meses representados pelos doze signos no zodíaco. O mês é variavelmente definido no jyotish e esta referência específica indica o movimento durante o período entre duas conjunções sucessivas da lua. Este é o mês sinódico que é aproximadamente 29 dias e meio que para conveniência são considerados como 30 dias. Já que a média do movimento geocêntrico do Sol durante 30 dias é 30 graus, isto define o saura masa (mês solar) que é o terceiro princípio de jyotish. Doze destes “30 graus de movimento” faz com que o Sol volte a sua posição original e isto define o samvatsara ou ano solar. Assim, o terceiro princípio de jyotish é este do tempo & espaço que é definido pelos dvadasha adityas (doze signos do zodíaco tendo o Sol como seu chefe supremo). O mês solar e ano solar são a base da astrologia védica e aquelas sub-divisões adicionais de tempo serão determinadas baseadas nos movimentos solares. A palavra samvatsara significa ano, mais especificamente ano solar, já que está baseado nos dvadasha adityas. Este conhecimento é de importância vital na determinação do período de influência dos planetas chamados dashas. Frequentemente, os astrólogos se atrapalham em concepções errôneas sobre usar o ano solar ou lunar ou até mesmo outras variedades definição de  períodos de tempo. Isto indica a falta de avaliação deste princípio de tempo & relação espacial como definida pelo dvadasha adityas.

     São chamados de adityas por serem os distribuidores do alimento e de todos os materiais necessários para criação e alimento (dana) como também inspiração, alegria, intoxicação, vitalidade sexual e vigor (mada). Os adityas são os doadores e tudo vem deles. Assim, os doze signos representam todas as formas materiais de criação.

4. Indra e Prajapati

katama indrah katamah prjapatiriti.
stanayitnurevendro yajyah prajapatiriti.
katama eko deva iti sa brahma tyadityachakshate.
                                            Sathapatha Brahmana 14.16:
Indra, o rei do Céu
     Stanayitnu significa trovão ou raio e refere-se aos impulsos elétricos que são usados pelo cérebro para controlar os sentidos. Assim, Indra é o semideus que controla os sentidos e o funcionamento do cérebro como também a inteligência de toda a criação. Yajna é o culto ou a louvação a Prajapati, o progenitor. Este é o quarto princípio do jyotish e é chamado de lagna, ascendente, representando o assento de Prajapati, o progenitor, e o “louvor ao Valioso”. Indra está sentado no trono do zodíaco indicado pelo ponto no meio do céu. Esta é a área da décima casa contada do lagna, signo ascendente.
     O zodíaco, a qualquer ponto do tempo, é dividido em duas metades pela linha do horizonte. Considerando que a Terra gira do oeste para o leste, os planetas e outras estrelas parecem se mudar para a direção oposta de qualquer ponto estacionário de observação na Terra. O Sol sobe no leste pela manhã, ascende ao meio-céu (meio do céu) antes do meio-dia e então começa a descer até se por no horizonte ocidental. Lagna é o ponto no horizonte oriental que está quase para ascender ou subir nos céus representado pela metade visível do zodíaco e é semelhante a hora do sol nascer. Isto é chamado de ascendente. Da mesma maneira, o ponto no horizonte ocidental que quase está para descer ou ir para abaixo do horizonte é chamado de descendente. O zodíaco é dividido em duas metades chamadas de drusyaadrusya (invisível) pela linha do horizonte com o céu na metade visível e a porção inferior do horizonte na metade  invisível. Os drusya rashis, signos do zodíaco (completos ou partes) na metade visível, estão nos céus chamados de lokas, enquanto que os adrusya rashis, signos do zodíaco (completos ou partes) na metade invisível ou abaixo do horizonte são chamados de infernos, talas. Há dois postulados baseados na (visível) e
     1. existência material ou física e  
     2. existência espiritual para descrever estes céus e infernos.
4.1. Os Três Mundos Materiais
     O universo físico pode ser classificado em três partes chamadas de bhu loka (Terra), bhuva lokanava graha[6]) e svarga loka (céu que contém as estrelas fixas que são a residência dos semideuses). O zodíaco geocêntrico (bhu loka como seu centro) limitado ao bhuva loka é chamado de o chakra de Vishnu (zodíaco tropical onde os tempos e outros fenômenos da atmosfera e além são vivenciados). O zodíaco geocêntrico baseado nas estrelas fixas no céu é chamado de o chakra de Narayana (zodíaco sideral). Estas condições são mencionadas especificamente no Vishnu Purana. O hindu piedoso recita a oração Om bhur bhuva svah, todas as manhãs para as bênçãos desta criação material, como um prefixo para o mantra de gayatri. (firmamento ou o sistema solar que contêm os
4.2. Os Quatorze Mundos Espirituais
     Assim, há sete céus e sete infernos. Os céus chamados lokas[7] são em sete partes: 

lokas e narakas no corpo
  • A porção visível do lagna (signo/casa ascendente) que ascendeu, ou seja, desde o começo do signo à longitude do ascendente chamado satya loka simbolizados pelas mil pétalas de lótus na qual descansa Prajapati (na forma de Brahma), o progenitor. Este é o assento do criador e Ele é louvado por toda Sua criação. Mostra a fama como consequência do louvor, saúde e vigor.
  • A porção visível da sétima casa/signo que está a ponto de descer ou entrar na metade invisível, ou seja, da longitude do descendente para o fim do signo chamado de bhu loka (plano terrestre). Mostra a morte e renascimento já que este é também o mrityu loka, onde a morte ocorre.
  • A décima casa/signo (o meio do céu é o trono de Indra) chamado de svah ou svarga loka.
  • Os signos/casas restantes na porção visível (8º, 9º, 11º & 12º) são o bhuva, maha, janah e tapah loka.
      Assim, os sete céus são bhu, bhuva, svah, maha, janah, tapah & satya loka e as deidades dos planetas o Marte, Sol, Vênus, Mercúrio, Lua, Saturno e Júpiter respectivamente, regem cada um destes lokas. Os sete infernos são os sete signos na porção invisível do zodíaco chamados de atala, bitala, sutala, talatala, rasatala, mahatala e patala respectivamente. Há sete narakas (os mais inferiores infernos para castigo) abaixo destes sete talas e são todos situados no nadir, ou seja, no ponto do meio do céu precisamente oposto a quarta casa. O hindu espiritual recita o mantra "Om bhur, Om bhuva, Om svah, Om maha, Om janah, Om tapah, Om satyam" todos os dias como um prefixo para o mantra de gayatri aspirando pelos céus mais elevados.

     Assim, em qualquer mapa, a sétima casa é examinada para morte e renascimento. Se a morte acontecer durante o período do planeta na sétima casa ou seu regente, então o renascimento seguramente acontecerá. O lugar de renascimento pode ser adivinhado pelo planeta/signo na sétima casa. Por exemplo, se Marte estiver na sétima casa, o renascimento será em uma ilha como o Sri Lanka. Outras indicações podem ser lidas em textos padrões. Também é por esta mesma razão que Parasara recomenda o Mritunjaya Mantramoksha (emancipação do ciclo de renascimento) durante tais períodos de planetas conectados com a sétima casa. A 12ª casa ou a porção um pouco antes do lagna é o satya loka, o ponto espiritual mais elevado e além desta é a região espiritual onde não há retorno. Através da constante repetição do Om tat sat e vivendo uma vida honesta, o adorador atinge satya loka e os céus mais elevados além de onde não há retorno a este mrityu loka. com sua oração para

     Assim, concluímos que os 33 devas são um paradigma básico do jyotish e que também podem se agrupar baseados na mobilidade. Estes grupos incluem:
a)      as estrelas fixas ou estacionárias formam o grupo de 27 (ou 28) nakshetras,
b)      as divisões de espaço e tempo formam o grupo de rashis ou dvadasha adityas  e
c)      os luminares
1.       Sol
2.       Lua,
os controladores dos pancha tattvas
3.       Marte,
4.       Mercúrio,
5.       Júpiter,
6.       Vênus
7.       Saturno e
os representantes de Rudra
8.       Rahu
9.       Ketu
que formam o terceiro grupo de corpos móveis chamados de graha.

Navagraha - 9 Planetas

     Considerando que estes são nove em número, são chamados nava graha. Usaremos a definição forçada de “planetas” para indicar estes nove corpos móveis. O Sol não é móvel dentro do sistema solar, mas é de um ponto de vista geocêntrico, isto é, assumindo que a Terra é estacionária, seu movimento é traduzido como sendo o movimento do Sol.

[1] dhatupatha
[2] ibid 7.16
[3] Shloka 1.6 Satyasamhita vai deva
[4] Shloka 3.7.3.10 Vidmanso hi deva
[5] Jaimini deu detalhes consideráveis sobre o calculo destes onze rudras (de fato dez rudras e o décimo primeiro ele chama de Maheshvara ou Shiva, que é o responsável para libertar a alma). Estes foram discutidos nos Volume VIII (Ayur Khand - Longevidade).
[6] 9 planetas
[7] Os nomes dos sete lokas como dados aqui é do Markandeya Purana. Seres humanos residem no bhu loka (plano terrestre), enquanto pássaros, nuvens e os semideuses residem no bhuva loka. Os nomes dados para os sete céus indicados pelos sete sinais são diferentes em outras literaturas védicas. Porém, são aceitados os nomes dados aqui como tão autênticos quanto o Rishi Markandeya que  foi o recipiente do conhecimento védico dos Maharishis através dos Rishi Chyavan e Daksha Prajapati. Ele também era o avô de Parasara.

12 outubro 2010

Quantos Deuses há? Brihadaranyaka Upanishad

[bRRihadAraNyaka upaniSad]
tradução Flávia Venturoli de Miranda

III-9-1. Então Vidagdha, o filho de Shakalya, perguntou-lhe:
– Quantos deuses há, Yajnavalkya?

Yajnavalkya explicou isto através do grupo de mantras nivid:
– Tantos quantos são indicados no nivid de todos os deuses {vishvadeva}, 303 e 3.003.

– Muito bem, disse Shakalya, mas quantos deuses realmente há, Yajnavalkya?
– 33.

– Muito bem, disse o outro, mas quantos deuses realmente há, Yajnavalkya?
– 6.

– Muito bem, disse Shakalya, mas quantos deuses realmente há, Yajnavalkya?
– 3.

– Muito bem, disse o outro, mas quantos deuses realmente há, Yajnavalkya?
– 2.

– Muito bem, disse Shakalya, mas quantos deuses realmente há, Yajnavalkya?
– 1 1/2 .

– Muito bem, disse Shakalya, mas quantos deuses realmente há, Yajnavalkya?
– 1.

– Muito bem, disse Shakalya, então quem são aqueles 303 e os 3.003?

III-9-2. Yajnavalkya disse:
– Estes são as manifestaçãos deles, mas só há 33 deva-s.

– Quais são esses 33?
– Os 8 vasu-s, os 11 rudra-s e os 12 aditya-s, estes são 31 e Indra e Prajapati compõem os 33.1

III-9-3. – Quais são os vasu-s ?
– Agni, Prithivi, Vayu, Antariksha, Aditya, Dyaus, Chandramas e Nakshatra, estes são os vasu-s.2

III-9-4. – Quais são o rudra-s?
– Os 10 prana-s humanos, atman é o 11º.3 Quando ele partem do corpo, fazem (os parentes da pessoa) lamentarem. Por lhes fazerem lamentar, eles são chamados rudra-s.

III-9-5. – Quais são o aditya-s?
– Os 12 meses fazem o 1 ano; estes são os aditya-s, porque levarão tudo consigo. Por levarem tudo com eles, são chamados aditya-s.

III-9-6. – Quem é Indra, e quem é Prajapati?
– A própria nuvem é Indra, e o sacrifício {yaj~na} é Prajapati.
– Qual é a nuvem?
– O trovão {ashani}.
– Qual é o sacrifício?
– Os Animais.

III-9-7. – Quais são os 6 (deuses)?
 – Agni, Prithivi, Vayu, Antariksha, Aditya, e Dyaus, estes são os seis. Porque todos esses (deuses) são (estão inclusos dentro) estes 6.

III-9-8. – Quais são os 3 deva-s4?
– Apenas, estes 3 mundos {loka}5, porque nestes todos esses deuses estão incluídos.

– Quais são os 2 deva-s?
– Matéria {anna} e força vital {prANa}.

– Quais são os 1 1/2?
– São aqueles que sopram.

III-9-9. Considerando isto alguns dizem:
– Como os sopros do ar como uma substância, podem ser 1 1/2?
– São 1 ½, porque através de suas presenças tudo atinge insuperável glória.

– Quem é o único deus?
– A força vital {prANa}; é Brahman que é chamado de Tyat (Aquele).



1 [deva] = deus, divindade
2 [vasu] = beneficiente,
 [rudra] = uivador/lamentador,
 [Aditya] = meses solares, filhos de Aditi [ ] que, por sua vez, significa livre, destituida, devoradora, morte).
 [indra] = rei dos deuses, deus da tempestade. [prajApati] é o senhor das criaturas, deus criador
3 [agni] = fogo,
[pRRithivI] = terra,
[vAyu] = vento/ar,
[AntarikSa] = céu atmosférico,
[Aditya] = filhos de Aditi [ ], meses solares,
[dyaus] = céu,
[candramas] = lua e
[nAkSatra] = mês lunar
4 Prana é a força vital, a energia que sustenta a vida, que se divide em prana, apana, samana, udana, vyana, naga, kurma, krikara, devadatta e dhananjaya [prANa, apAna, samAna, udAna, vyAna, nAga, kUrma, kRRikara, devadatta, dhana~njaya]
[Atman] é o Si mesmo, alma.
5 [loka] = mundos, os [trayaloka] são bhU bhuvaH svAH



Bibliografia
WILLIAMS Monier, Sankrit-English Dictionary, digital V1.5 beta
KRISHNANANDA, Sw., trad. Briharanyaka Upanishad in http://www.swami-krishnananda.org/brdup/brhad_III-09.html
MADHAVANANDA, Sw. trad. Briharanyaka Upanishad in http://www.celextel.org/108upanishads/brihadaranyaka.html

08 outubro 2010

Deuses Védicos

 por Flávia Venturoli de Miranda

Há ao menos três versões para os 33 deuses védicos:

33 Deva-s = Sura
Antes de listá-los, queria lembrar de alguns conceitos estudados por Campbell, Eliade. Há cosmogonias que se iniciam pelo Caos, onde da Escuridão surge a Luz, outras partem do relacionamento do Céu com a Terra. Desses casamentos divinos, hierogamia, dá origens às várias manifestações.

Assim, talvez seja o caso do deus védico mais antigo, Asura Varuna [asura varuNa], que o todo era apenas ele, só noite, profunda, infinita, mas ele se casa com Mitra [mitrA], o dia e o mundo surge. Posteriomente, Varuna passa a ser a água primordial insondável (portanto, obscura como a noite) e Mitra será uma manifestação do sol. Já nesse perído, Varuna é desbancado por um deus mais novo, Indra que junto com Prajapati [prajApati] cria os vários seres.

Outra versão nas mitologias mundiais, diz da cópula divina do céu, Dyaus [ ], que se deita diaramente sobre a terra, Prthivi [pRRithivI], e o mundo se frutifica. Esses são o pai e a mãe cósmicos. Na versão indiana, a filha do casal é a aurora, Ushas [uSas], que também em mitologias posteriores passa a ser uma das manifestações do sol, ou apenas uma auxiliar como a cocheira que guia os cavalos de Surya [sUrya], o sol, trazendo o dia.

Provavelmente essas foram crenças muito antigas, que foram suplantadas e absorvidas pelo culto dos 33 deuses védicos.
Os Vishvadevas [vishvadeva], que significa todos os deuses, não incluem realmente todos, mas trata da grande maioria citada nos Vedas. Esses 33 devas são associados a Luz, por isso são suras [sUra], mesmo que alguns sejam chamados de asuras [ ]. (veja a postagem Suras e Asuras).

Aqui começam as confusões, como quem conta um conto, aumenta um ponto, essas divindades são contadas e recontadas e reformuladas desdes os shruti-s, até os smriti-s, como nos purana-s, nos itihasa-s e outras coletânias. Assim, é muito dificil, para mim uma ocidental desatar esse nó védico e provalvemente vou incorrer em alguns equívocos, mas vou tentar nas futuras postagens.



1 [shruti] textos revelados pelos deuses aos videntes poetas
[smRRiti] textos da tradição
[purANa] mitologias, textos mitológicos
[ithihAsa] épicos


Bibliografia
CAMPBELL, Joseph, As Mascaras de Deus – Mitologia Primitiva. 8º ed, São Paulo: Palas Athena, 2010.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a Essência das Religiões. 2ª ed, São Paulo: Martins Fontes, 2008.
WILLIAMS Monier, Sankrit-English Dictionary, digital V1.5 beta



04 outubro 2010

A Assim denominada Guerra Racial no Vedas

do Dr. David Frawley (Vamadeva Shastri),
American Institute of Vedic Studies
Tradução de Flávia Venturoli de Miranda
com autorização do autor
Setembro/2010
Pensava-se que o povo védico tinham sido um raça de pele clara como os europeus, devida idéia védica de uma guerra entre luz e escuridão. Essa idéia era sustentada pelo fato do povo védico serem considerados como crianças de luz ou crianças do sol. Contudo, esta idéia de uma guerra entre luz e escuridão existe na maioria das culturas antigas tanto indo-européias como não, inclusive entre egípcios e persas, cuja antiga religião do zoroastrismo é principalmente dominada por esta dualidade. Isto também se reflete dentro da batalha bíblica entre Deus e Satanás. Por que não interpretarmos estas tradições como guerras entre pessoas de peles claras e escuras? É uma metáfora mítica, não uma declaração cultural. Todas as afirmações, nas quais se referem às pessoas hostis como escuras nos Vedas, simplesmente fazem parte desta analogia luz-escuridão, os demônios da escuridão contra o deus sol e seus poderes de luz.

Além disso, nenhum rastro real de uma raça branca foi achado dentro Índia antiga.

Antropólogos observaram que a população presente de Gujarat é mais ou menos composta dos mesmos grupos étnicos como se nota em Lothal em 2000 aC. Da mesma maneira, dizem que a população atual do Punjab é eticamente a mesma que a população de Harappa e Rupar de quatro mil anos atrás. Linguisticamente, na atualidade a população de Gujarat e Punjab pertence ao grupo da língua indo-ariano falada. A única conclusão que pode ser tirada das evidências antropológicas e linguísticas apresentadas acima é que a população de Harappa no Vale de Indus e Gujarat em 2000 aC eram compostas de dois ou mais grupos, o mais dominante entre eles tinham afinidades étnicas muito íntimas com a população de fala indo-ariano atual da Índia.

Em outras palavras não há nenhuma evidência racial de uma invasão indo-ariano da Índia, ou de qualquer população que se dirigiu do norte da Índia para o sul, mas só de uma continuidade do mesmo grupo das pessoas que tradicionalmente se consideravam ser ariano na cultura. Arqueologicamente, não há evidência de uma guerra racial e a evidência literária védica apenas parece ser um entrelaçamento de metáforas. Seria como tornar a prece védica que nos conduz da escuridão para luz em uma prece para nos salvar das pessoas pele escura e aliar-nos com esses de pele clara!

Povos Védicos

As batalhas mencionadas no Rig Veda, entre os aryas[1] e os dasyus[2], são em grande parte entre os “cinco povos” (pancha manava[3]). Estes cincos são identificados como o turvashas[4], yadus[5], purus[6], anus[7] e druhyus[8] que os Puranas descrevem como originados dos cinco filhos de Yayati[9], um rei védico anterior da dinastia lunar descendente de Manu, e o filho de Nahusha. Estes povos, tanto os dasyus como os arianos (arya), também eram chamados de nahushas no Rig Veda. Dos cinco, os principais povos do Rig Veda são os purus que normalmente se situavam no rio de Sarasvati ou na região central. Os yadus são localizados ao sul e a oeste no Gujarat, Rajasthan e Maharashtra até Mathura ao norte. Os anus ficam ao norte. Os druhyus estão ao oeste e sudeste de turvasha, como mencionados nos Puranas.

Na história original purânica havia dois grupos de povos, os devas[10] e os asuras[11], ou seja, os povos divinos e os não divinos, que tiveram vários conflitos. Ambos tinham gurus brahmins, os angirasas para os suras (devas) e os bhrigus para os asuras. Aos dois grupos de brahmins poderíamos acrescentar, que eram responsáveis por muitos ensinamentos na Índia antiga, inclusive das Upanishads. As batalhas entre os devas e asuras envolveram uma luta de seus gurus.


Asuras a esquerda e devas a direita durante o batimento do leite.
 
Rei Yayati, o pai dos cinco povos védicos e um seguidor, dos angirasas, teve duas esposas, Devayani, a filha de Shukra, dos videntes de bhrigu, e Sharmishta, a filha de Vrishaparvan, rei dos asuras. Turvasha e Yadu eram filhos de Yayati com Devayani dos bhrigus. Anu, Druhyu e Puru eram os filhos de Yayati com Sharmishta dos asuras. A história de Yayati mostra que os cinco povos védicos nasceram de uma aliança de reis aryas e asuras, e de seus videntes Angirasa e Bhrigu.

Vrishaparvan e Shukra parecem ter vindo do sudoeste da Índia, Gujarat, como os bhrigus eram os descendentes de Varuna, deus do mar, e sempre foram associados com esta região de Índia (por exemplo, sua cidade de Bhrigukaccha ou Baruch moderno perto de Baroda). Na história purânica, seus territórios limitaram-se naqueles de Yayati onde, enquanto caçava, aconteceu o relacionamento com Devayani e Sharmishta.

Consequentemente, três dos cinco povos védicos originais tiveram sangue asuras por parte de mãe. Puru, cujo grupo, no final das contas, predominava, teve sangue asura, considerando que os yadus que foram fortemente criticados nas literaturas védica e purânicas, não tinham sangue asura, porém os brahmins tinham. Nesta história, vemos que os dois grupos de povos – pensados na teoria de invasão ariana como os arianos invasores e os povos indígenas - tiveram a mesma religião e ascendência.

Este cinco povos foram nomeados arya e dasyu que significa algo como bom e mau, santo e profano, de acordo com seus comportamentos. Suas designações podem trocar rapidamente. Os descendentes de um rei ariano podem ser chamados de dasyu ou seu equivalente (rakshasa, dasa, asura, etc.), se seus comportamentos mudam.
Por exemplo, na mais importante batalha no Rig Veda, a famosa batalha dos dez reis (Dasharajna), os vitoriosos sudas, considerados como um rei puru, situado no rio de Sarasvati, inclui entre seus inimigos o grupo chamado de dasyu dos cinco povos védicos como o anus, druhyus, turvashas, e até mesmo os purus. Porém, os filhos dos sudas caem e, na literatura dos Brahmanas e dos Puranas, são chamados de rakshasas ou demônios por matar os filhos do grande rishi Vasishta. Enquanto isso os kavashas, uma família de vidente, listados entre os inimigos derrotados dos sudas aparece novamente dentro dos Brahmanas e das Upanishads como os sacerdotes principais da famosa dinastia de reis de kuru, particularmente Tura Kavasheya, o purohit[12] do Rei Janamejaya. Os bhrigus que estavam entre os derrotados pelos sudas, aparecem como professores em destaque no conhecimento védico e purânico posterior como já mencionado. Tais trocas seriam impossíveis se arya e dasyu fossem simplesmente termos raciais. Os arianos e os dasyus não são uma divisão racial ou linguística mas uma divisão religiosa ou espiritual que muda junto com comportamento humano.

Batalhas védicas estão principalmente entre os povos védicos que são divididos em vários reinos, grande e pequeno, muito como se encontra no próprio Mahabharata. Povos hostis geralmente são os kshatriyas védicos ou a nobreza entre este cinco povos. Divodasa, outro grande rei védico da linha puru, derrota, Turvasha e Yadu no Rig Veda. Um rei chamado Divodasa, nos Puranas, derrota os yadus. No Mahabharata, Mandhata, um grande rei védico e dasyu conquistador, derrota os druhyus, o rei de dinastia lunar dos gandharas ou Afegãos. Parashurama, o sexto avatar, do deus Vishnu, não só castiga os yadus (Kartavirya Arjuna) mas todos os kshatriyas. O grande rei da dinastia solar Sagara também derrota os yadus que tinham se aliados com muitos povos estrangeiros.

As principais batalhas védicas e purânicas são, por consequência, entre os purus e seus aliados (como os ikshvakus) e os yadus e seus vários aliados (principalmente os turvashas, mas às vezes com os druhyus). Isto é semelhante à batalha deva-asura como se colocam os povos do Sarasvati ao norte contra esses do sudoeste, mas novamente como uma batalha entre povos aparentados. No Rig Veda, primeiramente, Indra torna Turvasha e Yadu grandes e então os humilha diante dos purus.

Rama, o sétimo avatar, derrota Ravana que dizem ser um descendente brahmin do rishi como também um rakshasa (demônio). O irmão de Rama, Shatrughna derrota Lavana, o amigo de Ravana, em Mathura, a região de yadus que também dizem ser é um rakshasa. Esta conexão entre Lavana e Ravana sugere que o próprio Ravana era um yadu, um migrante de Gujarati para o Sri Lanka, não um dravidiano. A primeira onda de arianos a vir para o Sri Lanka foram do Gujarat e consequentemente yadus. Por isso, Ravana sequestra Sita no rio de Godavari que também era na região os yadus. Enquanto isso o outro irmão de Rama, Bharata, conquista Gandhara, a terra do druhyus.
Os pandavas, com Krishna, o oitavo avatar, derrotam seus próprios parentes, os kauravas que dizem ser a encarnação de vários demônios, em cujo ao lado estão os próprios gurus dos pandavas como Bhishma e Drona que eles devem também matar. Os kauravas são, além disso, os descendentes de uma mãe gandhara ou druhyu, Gandhari. Krishna também mata Kansa, um rei mau de yadu da sua própria família.

Outros exemplos proeminentes acontecem quando brahmins são os inimigos ou os videntes lutam entre si. Vritra, o inimigo de Indra, o maior deus védico, dito nos Brahmanas e Puranas deve ter sido um brahmin e Indra teve que se expiar pelo pecado de matar um brahmin depois do matá-lo. Esta idéia volta aos Vedas donde Vritra é o filho Tvashtar, um dos deuses védicos, a deidade patrona do sacrifício. Muitos dos conflitos nos Puranas são entre os videntes Vasishta e Vishvamitra, ambos honrados ao longo da literatura de Índia como grandes videntes. Este conflito volta ao tempo de sudas onde ambos competiram para se tornar purohit ou sacerdote chefe.
Textos védicos, como o Brahmanas, usam os dasyus como descendentes capturados do rei védico Vishvamitra, o mais velho de seus filhos; fazendo-lhes os descendentes mais velhos de reis védicos e videntes. Isto lembra uma das histórias de Yayati onde ele era Puru, o filho mais jovem que herdou seu reino e o seus filhos mais velho Yadu e Turvasha tornaram-se hostis.

Mleccha[13] é outro termo que depois se referiu às pessoas, que falavam um idioma diferente ou aos estrangeiros, era primeiro usado na literatura nos Sutras, Brahmanas e Mahabharata para pessoas de Índia ocidental de Gujarat para Punjab (reinos de anu, druhyu e predominância de yadu) que se tornou temporariamente uma região de práticas impuras. Tais pessoas eram obviamente os oradores de idiomas indo-europeus e era parte da mesma cultura. Estas mesmas regiões incluíram o reino do Deus Krishna em Dvaraka e a famosa cidade de Takshashila em Gandhara da qual o grande gramático Panini veio, o que mostra que tal termo era apenas temporário.

A exclusão dos povo védicos e daqueles de diferente características ou idiomas étnicos de língua não-indo-europeus é um suposição que deriva da teoria de invasão ariana e seu corolário de raça/língua ariana. Índia védica provavelmente era um cultura pluralista, como o panteão védico pluralista. Os Vedas são os únicos livros que sobrevivem desta era. Isto, porém, não significa que outros livros ou ensinamentos não chegaram a existir, inclusive com outros idiomas. É possível que ao menos cinco povos védicos inclusive grupos que falavam diferente, até mesmo idiomas não-indo-europeus, ou pertencentes a diferente grupos étnicos ou raças diferentes. Havia outras tradições arianas que derivam de ou alternativa para os védico como o zoroastrismo, ou as tradições de shramanas que deram à luz Budismo e Jainismo. Uma vez a idéia de invasão ariana é terminada, devemos reconhecer a diversidade de cultura védica e ariana. Não há nenhuma necessidade para estereotipar isto através de raça, idioma ou até mesmo religião, particularmente quando a tradição que veio disto é isto muito diversa.

Assim, os povos védicos devem ser excluídos estas características étnicas diferentes ou de fala de idiomas não-indo-europeus, pois isto são suposição derivada da teoria de invasão ariana e seu corolário de raça/língua ariana. A Índia védica provavelmente era um cultura pluralista, como um panteão védico pluralista. Os Vedas são os únicos livros sobreviventes desta era. Contudo, não significa que outros livros ou ensinamento não existiram, inclusive aqueles em outros idiomas. Pode ser que os cinco povos védico incluíram grupos que falavam diferentemente, até mesmo de idiomas não-indo-europeus, ou pertencessem a diferentes grupos étnicos ou diferentes raças. Há outras tradições arianas que derivam ou são uma alternativa védicas como o zoroastriamo, ou as tradições de shramana que deram à luz ao Budismo e Jainismo. Uma vez, que se desiste da idéia da invasão ariana, devemos reconhecer a diversidade da cultura védica e ariana. Não há necessidade para estereotipá-la através de raça, idioma ou até mesmo religião, particularmente quando a tradição que veio dela é muito diversa.

Os Puranas fazem os descendentes de dravidianos da família védica de Turvasha, um do povos védicos mais velho. Estes historiadores antigos não sentiam qualquer necessidade para limitar o povo védico em um grupo linguístico. Os Vedas retratam a grande região do norte da Índia que deve ter sido como um complexo cultural como hoje. Na realidade os Puranas consideram os chineses, os persas e outro povos não-índicos como descendentes de reis védicos. Os Vedas vêem todo os seres humanos como descendentes de Manu, seu primeiro e legendário homem. Dizem que os videntes védicos não só geraram os seres humanos mas a criação animal como também os reinos dos deuses e dos demônios.

Podemos comparar as guerras védicas com aquelas da Europa. Porém tais batalhas ferozes eram como os conflitos entre os católicos e protestantes, ou entre os alemães e os franceses, luta entre povos e religiões aparentados, que tiveram também longos períodos de paz entre si, além dos períodos mais dramáticos de conflito. Não temos que trazer a idéia de invasores externos para explicar estes conflitos e certamente a literatura védica e purânica não apóia isto.

do Dr. David Frawley (Vamadeva Shastri),
American Institute of Vedic Studies
Tradução de Flávia Venturoli de Miranda
com autorização do autor.
Setembro/2010


[1] arya – traduzido pelo dicionário Monier Williams como bom, excelente, verdadeiro, gentil, senhor, mestre, favorável.
[2] dasyu – traduzido normalmente como os inimigos dos deuses, ou povos bárbaros segundo o dicionário Monier Williams
[3] mAnava – descendentes de Manu (o primeiro homem da Índia, como se fosse o Adão judaico-cristão)
[4]Turvasha -  nome de um heróis e ancestral dos árias (chamado Yadu) formando a raça turvashayadu, no dicionário Monier Williams
[5]Yadu – nome de um herói mencionado junto com Turvasha, que foram preservados por Indra durante uma inundação, no poema épico ele é um dos filhos de Yayati e é irmão de Puru, Turvasu. Krishna é um descendente dos yadus. São também chamados de filhos de Vasu, rei de Cedi, ou o filho de Haryashva, no dicionário Monier Williams.
[6]Puru – significa muitos, É o nome de um príncipe (filho de Yayati e Sharmishtha e o 6º monarca da dinastia lunar) ou filho de Vasudeva e Sahadeva, ou filho de Manu Chakshusha e Nadvalala
[7]Anu – um homem não arya, um rei filho de Yayati
[8]Druhyu - filho de Yayati e portanto irmão de Yadu.
[9]Yayati – nome de um celebrado monarca da dinastia lunar, filho do rei Nahusha a quem sucedeu através de suas 2 esposas teve 2 linhagens de raças lunares Yadu (como o filho Devayani, que era filha de Ushanas ou Shuskra) e Puru (como filho de Sharmarmishtah, que era filha de Vrishaparvan). Tanto Yayati como Nahusha são autores do Rig Veda, Monier Williams.
[10] deva – divino, deus, associado com os sUras (do sol – sUrya)
[11] asUra – ausência de sol,
    asura – espiritual, divino, espírito supremo, inimigo dos deuses (sUras), daityas (filhos de Diti com Kashyapa)
[12] purohita – sacerdote familiar
[13] mleccha – bárbaros, estrangeiros