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28 março 2015

História da Grande Floresta



Trecho adaptado do livro Yoga Vasishtha
por Flavia Venturoli Miranda

Em uma pequena parte de uma Grande Floresta de grande ilusão, assustadora de ser vista e fonte de amarga dor, viveu um pessoa (purusha) com inúmeros olhos e mãos. Ele tinha uma mente que voava para todos os lugares. Tinha a forma do imenso espaço.

Ele continuamente se flagelava usando vários gravetos que enfincava rapidamente em si e então gritava com uma dor lancinante. Isso o fazia correr em diferentes direções sem qualquer controle de si mesmo. Lançava-se contra os objetos em um breu total. Caia em um poço profundo e desolador. Ali preso, supria com dificuldades uma vida de misérias. Depois emergindo do poço, voltou a acoitar seu corpo e berrava, movendo-se sobre os joelhos sem descanso. Na sua impetuosa pressa, se enredava em grandes espinheiras e perfurava todo o corpo, contorcia como uma traça na chama. Então, corria até um jardim de bananeiras, em que alcançava o outro extremo, a intensa alegria. Muitas vezes, ele foi deste jardim de prazeres para a floresta espinhosa, e outra tantas vezes caia no poço e voltava de novo, não achando prazer em nada.

Ao vê-lo assim por tantas vezes enrolado vertiginosamente, o deus Brahma usou seu poder para libertá-lo do medo e perguntou: Quem é você que tanto geme de dor? O que é você nesse seu lugar? E qual é sua intenção?

A pessoa, então, respondeu:
Todas as pessoas que tem o conceito do Eu (e de outras diferenças) não existe para mim. Não fui capaz de encontrar nenhuma ação para eu executar neste mundo. Sou bem sofrido pelas diversas diferenciações arranjadas por você. Você é meu inimigo, embora seja insignificante. É somente através de você que eu me identifico com a dor e prazer os quais tenho sofrido.

Disse isso e examinou seu próprio corpo. Seu coração começou a se comover e ele chorou alto. Desistindo por um tempo de seu pranto alto, ele novamente lançou seus olhos sobre esta bela forma e gargalhou alto por um tempo, quase rompendo sua barriga. Então, diante do deus Brahma, ele se libertou desse vários corpos grosseiros que havia assumido (nos seus muitos nascimentos).

Através da força do pesado destino, outra pessoa nasceu em outro ponto. Ele apareceu em um estado similar a aquele do outro individuo e se acoitou. Quando o deus Brahma foi consolá-lo, este caminhante passou adiante e desistiu daquele corpo.

Novamente ele veio em outro aspecto, e nesta vida ele caiu dentro de um poço profundo. Não foi visto sair do poço por um longo tempo.

Então, ele apareceu nesta floresta sempre desassossegada, nesta pessoa de um formato ou de outro que, embora, fosse um, contido no seu caminho e de ter conhecido a estrada do conhecimento verdadeiro, rejeitou o conselho de Brahma e ainda persistiu em seu curso obstinado de auto-açoitamento.

Essa pessoa feroz ainda existe, desfigurada por grande dor, vivendo nessa floresta terrível cheia de espinhos pontiagudos e coberto de uma densa treva capaz de por medo em todos os corações. Contudo aquele que é sábio deve, mesmo no meio de uma floresta em chamas, se alegrar de estar nela como um jardim de flores refrescantes com rufadas de aromas doces.

Rama pede que Vasishtha explique o significado desta história:
1.       A Floresta interminável é o samsara (existência mundana) que é destituída de começo, meio e fim, é maya (ilusão) e é horrível e repleta com inumeráveis vikalpas (fantasias).
2.       Purusha (pessoa) reside nesta floresta de um universo, ele é cheio de iras terríveis e isso  leva à mente se enredar na dor.
3.       Aquele que se verificou a passagem impetuosa da mente representa a discriminação.
4.       A mente que atingiu através de sua oposição, discriminação, o estado de quietude de Parabrahman.
5.       Primeiramente a mente foge da discriminação e por isso se enreda nas vasanas dos objetos.
6.       O poço a onde os egos afundam depois da maceração de seus corpos é naraka (inferno)
7.       O bananal simboliza o svargaloka (céu) cheio de prazeres.
8.       A floresta de árvores cheias de espinhos é o bhuloka (terra).
9.       O personagem que, depois de cair dentro do poço, não era capaz de erguer-se dali e por um longo período leva a mente a não se livrar dos erros.
10.   Os espinhos longos e pontudos representam os homens e as mulheres neste mundo, cheio de paixões.
11.   As palavras: “Você é meu inimigo embora insignificante e É apenas por você que eu me identifico com dor e prazer as quais me fazem sofrer.” são os afloramentos da mente em seus últimos suspiros para a morte através da discriminação.
12.   O choro é disparado quando os desejos são caçados para serem aniquilados.
13.   O lamento e pedidos de ajuda resultam da dor que a mente com Jnana meio desenvolvido sente quando renuncia aos desejos.
14.   O final, calmo e feliz e a subsequente gargalhada é a felicidade que brota da mente se fundindo no puro Jnana.
15.   E a felicidade real é aquela que brota quando a mente se despe de todos os desejos através do eterno Jnana, e destrói sua forma sutil.
16.   O refreamento da mente através da força extrema refere-se a concentração dela através da iniciação no Jnana.
17.   O açoite do corpo refere-se a dor causada pela extrema concepção errônea da mente.
18.   A peregrinação da pessoa põe entre um vasto campo é o vaguear no mundo, inconsciente da Realidade, que pode ser atingida somente através do domínio das perecíveis vasanas.

Disse Vasishtha a Rama de mente clara: Assim é que todos os samkalpas e vasanas que um homem gera enredam-o como numa teia. Todos se tornam sujeitos às amarras através de seus próprios samkalpas e vasanas, como um bicho-da-seda no seu casulo. Sondou dentro de sua mente através de sua mente imaculada e peneirou-a Satisfatoriamente, que você possa destruir sua mente impura.

Glossário:
bhuloka - terra
Brahma – deus, absoluto (qualificado)
jnana – conhecimento, neste contesto se refere ao conhecimento real inato da alma
maya – ilusão
naraka - inferno
Parabrahman – Deus supremo, Absoluto
purusha  - personagem, pessoa
samkalpa – pensamentos e desejos materializados
samsara  - existência mundana
svargaloka - céu
vasana – intenção, desejos latente inconsciente
vikalpa – fantasia, imaginação

08 junho 2012

Soberania de Si

de Flávia Venturoli Miranda
4 de junho de 2012.
Para meu irmão que me pediu essa explicação.
Altivez do Soberano

Buddhi, o intelecto, é o primeiro princípio da manifestação do mundo na filosofia Sankhya. A buddhi evolui do reflexo de Purusha na Prakrti.

Purusha é a luz da consciência, eternamente imutável, estático e resplandecente. Prakrti é a substância primordial, a matéria da qual as coisas são feitas, é eterna e incônscio.  Inicialmente, Prakrti está imóvel com três qualidades (gunas) latentes que são perturbadas pela luz de Purusha. Essas qualidades se desequilibram e Prakrti começa suas mutações transitórias. Os gunas são: a qualidade estática luminosa da leveza que é prazerosa, sattva; a qualidade móvel da agitação que é dolorosa, rajas; e a qualidade estática pesada do obscurecimento que é intoxicante e limitante, tamas. As três qualidades são passadas para toda a manifestação, porém em proporções diversas.

Há inúmeros Purushas a se refletirem em uma única Prakrti. Contudo, cada um desses reflexos faz com que a única Prakåti, por ser qualificável, se desdobre em muitas partes, fazendo surgir uma profusão de formas. Desse modo, Puruña torna-se um expectador da Prakrti, esquecendo que na verdade é seu próprio reflexo que fez surgir o mundo.

Budh, despertar, é o radical de buddhi que, por sua vez, significa intelecto, sábio, razão, discernimento. Segundo o Sankhya, a buddhi é definida como percepção (khyati) e apreensão (adhyavasaya). Essa é a primeira manifestação e, como todas as demais, possui os três gunas. Rajas faz com que buddhi tenda para sattva ou para tamas.

Segundo o sábio Ishvara Krshna, quando buddhi tende a sattva; ou seja, quando o intelecto está leve, brilhante e puro; tem a disposição da virtude (dharma), sabedoria (jñana), desapego (viraga) e soberania (aishvarya). Quando buddhi tende a tamas; ou seja, quando o intelecto está pesado, entorpecido, obscurecido e limitado; tem a disposição do vício, ignorância, apego e fraqueza.

Assim, a natureza do intelecto tranquilo é a soberania. A soberania é ser senhor de Si. Ser o controlador e administrador dos seus desejos. O poder nato da autoridade, responsabilidade, o domínio sobre Si. As atitudes nobres e supremas brotam: sabedoria, desapego e ética. O intelecto altivo é estável e sua natureza transluz. Aqui a imobilidade é o desfrute do prazer. Sattva subjuga rajas e tamas.

É interessante notar que a mobilização interna se faz necessária para que essas qualidades do intelecto se manifestem, caso contrário ocorre a entropia. O peso da letargia obscurece, limita, entorpece e emburrece a Si mesmo. Aquele que é naturalmente desperto, buddhi, passa a ser irresponsável, torpe, nefasto, sujeito a fraqueza de Si. É subjugado pela própria impureza intelectual. O “Si mesmo” se identifica com essas qualidades e a escuridão o leva a paralisia. Aqui a imobilidade torna o intelecto uma âncora em um lodo de aflições (kleshas).

A tendência (vasana) à luz ou escuridão é ditada pelas ações (karmas). As ações levam a hábitos (samskaras) que tendem a se repetir continuamente de forma inconsciente. Por isso, para quebrar esse ciclo de sofrimento (sansara), advindo da queda livre no buraco escuro do intelecto, é necessário mobilização interna.

No Yoga Sutra, o sábio Patañjali diz que a dispersão mental produz e é produzida por obstáculos limitadores: doença, procrastinação, dúvida, negligência, preguiça, desinteresse, confusão, não realização e instabilidade. Que por sua fez produz sofrimento, melancolia, agitação física e mental e respirações difíceis. Patañjali dá várias indicações para o apaziguamento em uma mente focada: exercitar o foco em um único assunto, mudança de atitude com os outros, controle respiratório, desapego, meditação, entre outros. O exercício da troca do que é “tamásico” pelo “sáttvico” retém essas qualidades na intuição e na memória, para isso deve-se crer na prática feita com afinco, que leva a um enfraquecimento das tendências corrompidas. Então, a prática deve ser executada com desapego, sem contar com resultados, mas acreditar que eles ocorrerão, desse modo a soberania do intelecto é assegurada e conservada.

Assim, com o intelecto tranquilo e a mente quieta, o resplendor de Si mesmo se faz notar.